Manhã chuvosa. Marly vira na cama de um lado para o outro, encontra-se psicologicamente abatida. Liga a televisão para assistir ao programa matinal apresentado por seu marido, que insistentemente solicita para seus telespectadores, orarem por sua esposa. Ressalta, com a voz embargada pela emoção, que sua gravidez é de alto risco, e terá que passar por alguns procedimentos nesta tarde. Com olhos fechados e a cabeça voltada para o céu, implora a Deus, em frente às câmeras, que olhe por ela, não permitindo que nada de ruim possa acontecer a ela e ao bebê.
Marly olha fixamente para a tela da TV e se repugna com tamanho cinismo. Lembra-se das palavras que ele lhe disse antes de sair de casa.
"Você não pode ter este bebê. Já foi diagnosticado como anencéfalo é um feto com morte cerebral, se ele nascer minha reputação estará comprometida. Sou um homem público, saudável, admirado, não posso passar a imagem de ter ajudado alguém a gerar um filho deficiente"
As lágrimas rolam insistentemente pelo seu rosto, enquanto Marly se lembra das palavras do pastor de sua igreja:
"Pense bem minha filha, Jesus em sua infinita bondade proíbe a eliminação de um ser humano inocente e não aceita exceções. Os fetos anencefálicos, como todos os seres inocentes e frágeis, não podem ser descartados e também tem seus direitos. Sei que esta gestação está sendo um drama para você e sua família, seu marido por vergonha e egoísmo tem interesse de ocultar esta informação, sei também que especialmente para você está sendo complicado, mas não leva adiante a possibilidade, pois Jesus, que comemora a vitória da vida sobre a morte, nos inspira a reafirmar com convicção que a vida humana é sagrada."
Marly ajoelha-se e suplica:
- Ó meu Deus, o que devo fazer? Não me abandone neste momento. Sei que meu bebê não terá amigos, não correrá pela sala, não jogará bola, não irá à escola, e nunca me chamará de mamãe. Sei também meu Deus que se ele nascer com vida o terei por alguns minutos e com certeza será um trauma que levarei comigo para o resto da vida, pois não terei coragem de engravidar novamente.
Colocando-se de pé tenta se resignar, mas ao fechar os olhos vem a sua mente as palavras do seu advogado.
"Fique tranquila Marly, não se sinta culpada, sua decisão está amparada por uma recente decisão STF, aborto consentido, e dependerá da decisão da mãe que estiver gerando o feto com Anencefalia. Portanto, você estará judicialmente protegida por uma excludente de ilicitude. Seu marido me informou que você corre risco de vida, segundo o parecer médico e se continuar com esta gestação poderá ter consequências colaterais graves".
Marly anda pela casa, a campainha soa. A ambulância chega e Marly é levada ao hospital amparada pela sua mãe que numa última tentativa implorava, dizendo que não queria morrer sem antes ver o rostinho de seu netinho nem que fosse pela primeira e última vez. Marly chora durante todo percurso até o hospital. Os procedimentos foram realizados naquela noite.
Ao amanhecer, sozinha no quarto do hospital, sentia-se vazia, abandonada, culpada. Novamente lembrou-se das palavras do médico, e pensava: "Com certeza foram corrompidos por meu marido. E o pastor? Será que realmente conversa com Deus? O meu advogado, esse sim, tenho certeza, que conversa com o diabo, e minha mãe, dela eu não sei nem o que pensar".
Marly liga a TV e vê seu marido aliviado, transmitindo a tranquilidade que só ela conhecia, mas hipocritamente continuava pedindo preces a seus telespectadores, pois agora precisa que Jesus atenda seus pedidos para a pronta recuperação de sua esposa.
Depressiva, Marly no seu silêncio profundo e doloroso, em seu íntimo a revolta falou mais alto: "Ah! Meu querido, você não perde por esperar!".
Fundamentação Jurídica: {Por decisão do STF, não pratica o crime de aborto tipificado no Código Penal a mulher
que decide pela “antecipação do parto” em casos de gravidez de feto
anencéfalo}.
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